terça-feira, janeiro 26, 2016

Sobre merecimento





Dia desses, depois das discussões sobre a ausência de mulheres na premiação de Angouleme e de negros no Oscar, amiga minha “desabafou”: “ai, tou de saco cheio desse politicamente correto. Eu sou mulher e só quero ser indicada pra prêmio por causa da qualidade do meu trabalho e não por cotas ou qualquer merda do gênero”.
O que me faz pensar: como são feitas as listas e prêmios? Como você olha pra toda a produção artística de um ano inteiro e diz “vejam, aqui está o MELHOR de todos?” Quem faz isso?
Primeiro, falando de um ponto de vista extremamente pragmático e rasteiro, premiações e listas não são feitas pra celebrar o “melhor”. Elas são feitas pra celebrar egos e pra estimular o consumo.
Ser indicado a um Oscar é ganhar um selo de qualidade que pode dar um bom empurrão nas bilheterias. Agora, ganhar um Oscar não significa necessariamente que o “melhor” venceu, porque a definição dos parâmetros que fazem algo ser “melhor” (principalmente quando falamos de filmes, livros e quadrinhos) é, em última instância, subjetiva. Você pode dar mais valor à estrutura, à linguagem, à técnica ou você pode estabelecer uma escala de “relevância” onde a representatividade, as questões sociais, a reflexão são determinantes da qualidade. De qualquer forma, toda a sua argumentação acerca dos valores e da hierarquia desses valores vai se dar a partir da sua formação e dos seus interesses. E não dá pra dissociar isso do subjetivo.
Daí voltamos pra minha amiga indignada com a pressão das “cotas” no Oscar e em Angouleme. Ela argumenta que, se o trabalho for de “qualidade”, ele será escolhido. Diabos, o Milton Gonçalves falou algo assim também: não há negros no Oscar porque nenhum fez um filme bom. Jesus.
Posso dizer pra minha amiga e pro Milton Gonçalves que não há  mulheres em Angouleme e negros no Oscar porque os seres humanos que escolhem os “melhores” julgaram que não há mulheres ou negros e negras “bons o suficiente pra preencher os parâmetros de qualidade estabelecidos por nós, que somos homens e brancos”.
Essas listas e premiações tem a função primordial de estabelecer uma linha entre aqueles que são celebrados e os que não são. Entre aqueles que MERECEM ser celebrados e os esquecidos, ignorados, desvalorizados. E se paramos pra pensar, essas listas e premiações fazem muito sentido dentro de uma mentalidade que se baseia na crença de um mundo em que há pessoas que são melhores do que as outras e merecem mais. Mais atenção, mais respeito, mais dinheiro, mais alegria. E tem o resto, que não foi bom o suficiente pra ser indicado e que deve aplaudir e reconhecer o brilhantismo dos “melhores”. E limpar a casa, por a comida na mesa e fazer um boquete decente quando solicitado.
O problema das premiações e listas é o mesmo problema dos filmes, séries e livros. Toda essa produção cultural é feita em sua maioria por homens brancos, protagonizada por homens brancos e mostrando um mundo pensado por homens brancos. Onde há um protagonista homem branco que “vence” dificuldades e “conquista” coisas, como medalhas, empregos, reconhecimento, campeonatos pokemon, iates e mulheres. E essas obras e premiações não enxergam e não dão espaço pra outras visões de mundo.
Exercício de imaginação: vamos supor que pro Oscar de “melhor” animação desse ano, estivessem concorrendo apenas dois filmes. Vamos supor O Menino e o Mundo vai disputar sozinho contra o Divertidamente.
Divertidamente: animação da Pixar que mostra o drama de uma menina branca que está deixando a infância pra entrar na adolescência, quando seus pais se mudam e ela tem dificuldade de se adaptar. O “tempero” são as personificações de sentimentos como Alegria, Tristeza e Raiva que vão comandando a cabeça da menina e acompanhando as crises de amadurecimento. No fim, os pais decidem se mudar de volta e tudo acaba bem.
O Menino e o Mundo é uma animação sem diálogos que mostra uma criança crescendo. Ela começa num ambiente cercada pela natureza, com riachos e animais, e aos poucos vai tendo a cor e a alegria de sua infância sendo colocadas diante de coisas como a separação dos pais, o trabalho, a miséria, a imundície e brutalidade da cidade grande. A inocência se perde e há muitas e muitas dúvidas se tudo acaba bem.
O Menino e o Mundo é um filme corajoso e forte de um jeito que as produções pausterizadas das Pixar jamais vão conseguir ser. Porque a Pixar não só mostra uma visão de mundo comportada como precisa evitar levantar qualquer questão ou reflexão por parte da sua audiência que envolva questões mais complicadas do que aceitar que precisamos deixar nosso boneco de pelúcia pra trás.
Imagine se Divertidamente tivesse como protagonista uma menina negra de favela que tem o pai assassinado pela PM. Por que não? Se você realmente se dispor a responder essa pergunta “por que não?”, você vai aprender muita coisa sobre mercado, indústria cultural e sobre você mesma/mesmo.
Agora, voltando à nossa situação hipotética: quem você acha que a Academia iria premiar? Divertidamente ou O Menino e o Mundo? E, independente do resultado, será que faria sentido dizer que o “melhor” venceu?
No fim das contas, voltando lá pra minha amiga: não, querida, premiações não tem nada a ver com qualidade. Elas têm a ver com política, com mercado e com relações de poder. Faz todo o sentido usarmos essas premiações e a produção cultural pra discutir essas questões de inclusão e de representação. É uma questão de disputas e você sempre está assumindo algum lado. Conscientemente ou não.
Se dá pra aprender alguma coisa de Divertidamente, é que uma hora a gente precisa deixar pra trás as fantasias infantis de “venceu porque era o melhor” e começar a aceitar que a coisa é bem mais complicada, rasteira e problemática.

quarta-feira, novembro 04, 2015

Dias interessantes


A partir dessa quarta-feira, 04 de novembro, vou publicar no Medium em episódios minha nova história em quadrinhos, Dias interessantes. Todas as quartas-feiras, um episódio novo.
O álbum impresso com a história completa (formato 21x28cm, 88 páginas, preto e branco, lombada quadrada, R$40,00) está disponível para compra no endereço diasinteressantes@gmail.com .

segunda-feira, novembro 02, 2015

An advice

I learned that the most dangerous heart is that which does not know what love entails but carelessly ensnares another.
I learned that the most dangerous heart is from one that claims to love you earnestly but without commitment; bolts with the wind when reality sets in and finds the object of affection less favourable than its ideals or set expectations.
I learned that the most dangerous heart is that which can change in a heartbeat and discard another ruthlessly - numb, with no care of how painful, traumatic and heartbreaking it would be.
I learned that words of love are so good to hear and it is prudent not to trust them. These can just be words without any meaning.
I learned that people you love most can be the ones to not mind turning your world upside down and leave you out hanging to dry.
I learned that love is a choice and a commitment to an imperfect person. It is complete acceptance of both light and darkness.
I learned that love is a journey of happy and wholehearted compromises. We can't always have all the qualities and conditions we look for but we can choose to learn and appreciate our differences; motivate each other for the better.
Believe in love but DO NOT LOVE RECKLESSLY.
- Charis Gaye Dagoc
Marina Abramovic, Rest Energy"

sexta-feira, outubro 16, 2015

Notas do autor 10: Finale

Que conste nos autos que no dia 16 de outubro de 2015, à 01:25 da manhã, eu conclui a última página da minha história em quadrinhos.

A septuagésima segunda.

A história mais longa que já fiz.

Agora falta capa e digitalizar a porra toda.

Quem diria.

Consegui.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Notas do autor 9: motivação

Pensei que escrever sobre o processo criativo ia ser divertido, inspirador. Acontece que o processo criativo é meio que nem a vida e nem sempre é divertido, inspirador.

Tem horas que a gente simplesmente tem que trabalhar. Apenas. E na maior parte do tempo, é um trabalho que pode ser tão massante quanto qualquer outro, por mais boa vontade, bom humor e tudo de bom que se possa invocar.

Tem horas que a gente entra por caminhos que assombram. Tem horas (e não são poucas) que a gente se pergunta se tudo isso vale a pena, se vamos ter coragem de mostrar essa coisa pras outras pessoas ou se alguém não vai aparecer pra rasgar o nosso livro na nossa frente ou nos dar um tiro porque se sentiu ofendido. Não que a história seja particularmente ofensiva, mas... ela pode perturbar.

Eu sei que eu estou perturbado.

É como se eu estivesse mapeando alguma coisa, como se eu estivesse tentando fazer o retrato de uma fratura exposta que me fascinava e eu já nem lembro mais por quê.

No fim é só mais uma história em quadrinhos, nada mais que isso.

E ela me tira o sono, me consome e precisa ser terminada.

Apenas.

sábado, setembro 12, 2015

Notas do autor 8: mas, geeeeente...

Fazer quadrinhos dá muito trabalho.

Sério.

Na fase de roteiro e layout, que você esboça a história, a coisa flui gostoso. Mas na hora de transformar tudo em imagem, em desenhar detalhes, expressões, roupas, cenários... gente.

A estratégia que tou desenvolvendo é simplesmente não pensar. Não pensar em tempo, em prazo, em produção, em velocidade. Porque, se pensar nisso, eu desisto.

"Cale a boca e desenhe", dizia meu professor.

E é isso.

Bora.

domingo, julho 05, 2015

Sobre simplesmente ser (mais ou menos)

Existe diferença entre "Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é"?

No primeiro caso me parece que o querer determina o ser. Tipo, a gente imagina quem quer ser, a gente tem na cabeça direitinho que tipo de pessoa que a gente quer ser e a gente vai lá e se torna essa pessoa. Fácil.

Daí eu lembro de um desenho animado, um dos primeiros que eu assisti na vida, que mostrava um dragãozinho que queria ser bombeiro quando crescesse. Um dragão que cospe fogo queria apagar incêndios. Eu não tinha nem cinco anos ainda e acho que, por causa daquele desenho, bombeiro foi uma das primeiras coisas que imaginei ser quando virasse adulto.

"Ser quem se quer ser".

A gente é adulto e escolhe quem quer ser.

Mais ou menos. Querer ser um escritor brilhante, um jogador de basquete extraordinário, um astro da música mais popular do que os Beatles. "Ser quem se quer ser" é um bocadinho mais complicado e trabalhoso do que a gente gostaria. E pode não rolar.

E tem mais uma coisinha ainda. A gente vai vivendo e a vida vai acontecendo. A gente vai perdendo pedaços. Vai ganhando marcas, cicatrizes. A gente diz coisas que gostaria de jamais ter pensado e não podem ser desditas. A gente machuca pessoas que amamos e não tem como voltar atrás. A gente despedaça e é despedaçado.

Daí se olha no espelho e vê um pedaço de carne cheio de histórias, cheio de desejos, esperanças, frustrações. A parte "ruim" faz parte da gente também. E, por parte "ruim", entenda tudo aquilo que a gente não gosta em nós mesmos. As nossas decisões erradas, os fracassos, as perdas, as mágoas. Deixar pra trás quem a gente ama, ser deixado pra trás por quem a gente ama. Aquelas coisas doloridas que nos perturbam e assombram e fazem de nós um bocadinho de quem nós somos.

"Querer ser quem se é".

Porque as coisas ruins, as coisas que a gente não pediu, fazem parte do pacote. Mesmo que a gente não fotografe e não escreva sobre elas no facebook, elas fazem parte do pacote. Compulsoriamente. Todas aquelas marcas em nosso casco. Todas as nossas enervantes limitações. Mesmo as bobas. Podia não ter essa barriguinha. Podia ser uns 20 centímetros mais alto. Ou mais baixo. Podia não envelhecer, não perder amizades, podia ter tido uma família.

"Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é" são coisas diferentes, mas não excludentes. Acho que dá pra fazer os dois ao mesmo tempo.

Admitir para nós mesmos que acontecem coisas que não gostamos, assumir que existem coisas que fizemos e não deveríamos ter feito ou que não fizemos e deveríamos ter feito. Aceitar que tem momentos que se perdem para sempre. Assumir que não temos controle de tudo, mas que podemos escolher ter uma posição diante da vida e fazer o melhor possível pra se manter fiel a ela.

E, eu acho, pelo menos pra mim, acima de tudo, ter noção de que "ser" não é uma questão apenas individual. Nós fazemos parte de uma coletividade. Quem somos e decidimos ser faz parte dessa coletividade.

E é isso.

Mais ou menos.